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Comunidades do Conselho Quilombola da Bacia e Vale do Iguape
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Map 3 A - Serra Grande territorial boundaries

Serra Grande is a small town located in the Uruçuca municipality with approximately 6,700 inhabitants. It is located in the southeast part of Bahia known as the “Cacau Coast.” Serra Grande has seen its population triple in the last twenty years, due in part to a construction of the BA-001 highway, which passes through the town, connecting it to the lhéus airport and to the tourist destinations of Itacaré and Maraú. Located within the Itacaré-Serra Grande Environmental Protection Area and surrounded by the Atlantic Ocean to the east, Serra do Conduru State Park to the west and the Lagoa Encantada Environmental Protection Area to the south, Serra Grande has also become an conservation stronghold. In 1992, the Atlantic forest native to the area was recognized by the New York Times as being one of the most biodiverse places on the planet.

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Agda  de Jesus

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Luciane Cruz

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Dentre as 18 comunidades que compõem do Conselho quilombola, da Bacia e Vale do Iguape, 4 delas possuem como atividade central a pesca e mariscagem, já que as outras, devido à distância do mangue, voltam suas atividades a outras formas de cultivo e extração como apicultura e agricultura de subsistência. Assim, Engenho da Praia, Engenho da Ponte, Kalembá e Dendê, foram as comunidades em que essas pesquisadoras desenvolveram seus campos de pesquisa etnográfica.

 

O Sururu  é o marisco mais pescado na região na pesca feminina e figura como elemento  central da alimentação das famílias pesqueiras,mas  é também comercializado. Além dele, existem também, outras formas de pesca como  a extração das Ostras nas Camboas e o cultivo dessas em travesseiro; a pesca de peixes pequenos na camboa;  a pesca do Mirim, que é cavado na lama; captura de Caranguejos com as mãos nos buracos; e o Camarão pego nas camboas de jerereré, ou de rede….

 

Essas diversas formas de pesca utilizam-se de diversas ferramentas, e técnicas de pesca,  conservação e preparo. Mas além disso existem outras dimensões dos saberes sobre a pesca, a sabedoria ancestral transmitida de geração em geração através da  oralidade sobre ciclos reprodutivos, lunares e de marés; e a conexão espiritual com esse território e as energias que o compõem, são fundamentais para alimentar a fé no mangue e providência divina no “Supermercado de Deus”.

Dani catando Sururu - Comunidade Kalembá

Supermercado de Deus: Camarão, Caranguejo e Cavar o Mirim

Dona Juvani Mãe de Santo do Terreiro 21 Aldeia de Mar e Terra - Comunidade Kaonge

Dona Juvani, marisqueira, professora e fundadora da Escola São Cosme Damião na Comunidade quilombola do Kaonge em Cachoeira, Mãe de Santo do Terreiro 21 aldeias, localizado no quilombo do Kaonge, Mestre Griô e matriarca da família Viana, afirma sua devoção às mães das águas. Mantendo seu compromisso, todos os anos, entrega presentes a Oxum, mãe da água doce, à Iemanjá, mãe da água salgada, dos mares e marés, e a Nanã, a lama da qual tudo nasce. 

“A Ostra, e Sururu… tudo que vem de Deus, tudo é criado na lama, por isso devemos agradecer e cuidar!”

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Estátua de Yemanjá em Santiago do Iguape. 
Protetora das águas e dos pescadores.

A relação espiritual com as forças do manguezal fortalecem o afeto e o respeito por este ambiente que provê seus sustentos. Por isso, a fartura do mangue é sempre destacada como divina, o respeito e cuidado pelo manguezal são sempre mencionados como contrapartida para a continuidade dessa relação, e o afeto pelo fazer (ir ao mangue mariscar, cozinhar) e o vínculo afetivo de comer as comidas tradicionalmente preparadas a partir destes mariscos, são os grande motivadores dessas mulheres. O desejo de ir ao mangue mariscar alimenta e ao mesmo tempo é alimentado pelo viver do/no mangue.

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A expressão Supermercado de Deus é amplamente utilizada entre as marisqueiras  da Região do Conselho quilombola. Tal expressão refere-se ao mangue e trata da fartura e diversidade alimentar disponibilizada por este, de maneira tão divina.  A abundância de mariscos, bem como a certeza de encontrá-los é valorizada pelas famílias que sentem a segurança de sua alimentação nesses ambientes e são gratos por ela:​

“Agradecendo a Deus e Dona das águas - Iemanjá, Nanã, Oxum, que graças a Deus fornece todo esse pescado pra gente. De graça, a gente só vai lá colher, tem muito que agradecer, nem todo mundo tem esse privilégio de ir lá pegar e comer. Somos ricos das graças de Deus e da Natureza!"

Comidas do Supermercado de Deus- Mirim, Baiacú, Ostra, Sururu e Camarão

No supermercado de Deus encontra-se Sururu, Caranguejo, Siri, Camarão, Peixe, Ostra e tantos outros mariscos. Com eles faz-se escaldados, moquecas, pirões além das produções para comercialização. O Camarão pode ser pescado de rede ou de jereré na camboa. Nas redes que são colocadas um dia e retiradas no seguinte, é importante atentar para o tamanho da malha, evitando pegar os pequenos, e deixando que cresçam e se reproduzam. Ambas as técnicas exigem uma pausa durante o período de defeso em que estão em fase de reprodução e não devem ser capturados de forma alguma. O Camarão pode ser comercializado no kilo congelado, ou preparado através do processo de secagem artesanal para ser vendido no litro. Neste caso, em geral, seu uso é destinado a baianas de acarajé e festas de Caruru.

Dona Nega - comunidade Kaonge

Escaldando Ostra com Noca - Comunidade Engenho da Praia e Pegando Sururu com Selma, Uka, Mayane e Jaqueline - Comunidade Engenho da Ponte

Escaldado de Sururu

The tourism and real estate boom in the region has also created more jobs in the construction industry. With residences, hotels, and commercial space expanding to meet the arrival of new populations, and with a new port project, the Porto Sul, being built just a short distance from the village, demand has increased for labor.  

Nativa women have also been drawn to jobs in the service sector as cleaners, cooks and nannies and no longer have time to fish.

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Escaldado de Sururu, Ostra e Siri

Assim, a saída motivada pelo desejo do prato, muitas vezes se dá acompanhada de outras marisqueiras e seus filhos para uma mariscagem rápida que não visa a colheita para comercialização, mas sim para satisfazer o vínculo afetivo que alimentam com tal receita. Recolhem o necessário no mangue para a receita, e retornam para casa. Lá fervem os mariscos, catam, e em seguida fazem o preparo da refeição, em fogão de lenha montado no chão do quintal de casa. Comem acompanhado de pirão que é feito da água do escaldado com farinha de mandioca, em família e entre amigas/parentes.

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Ponta do Ramo

OSTRA

A Ostra pode ser produzida a partir de duas técnicas diferentes, a primeira é a extração das Ostras que se reproduzem naturalmente nas camboas (estrutura de paus construída dentro da maré e que servem para prender peixes e mariscos). 

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Balde de Ostra na cabeça

Este tipo de Ostra é extraída da camboa com facão ou ferro e colocadas em baldes, posteriormente transportadas em Cangaias que são espécies de cestos fixados aos animais de transporte até a comunidade. Lá são aferventadas ou “escaldadas” na linguagem local, e depois retiradas da casca ou “catadas”, coletivamente, já que a prática do trabalho coletivo solidário é a mais comum na região. Assim, marisqueiras e pescadoras auxiliam uns aos outros em seus processos de beneficiamento, e são também ajudados. Após escaldadas e catadas as ostras de camboa são ensacadas por kilo e comercializadas, especialmente por atravessadores, já que não possuem ainda formas de escoamento mercantil eficazes para dar vazão à produção. A Festa da Ostra inclusive, evento anual que está em sua décima sexta edição, foi criada a partir da necessidade de dar vazão à produção de Ostra da região, e acabou se tornando um evento nacionalmente conhecido e apreciado.

Luciane andando na lama do mangue - Comunidade Dendê

The places where nativo residents lived as children and youth are now fenced off and owned by big businessmen. Some of these new arrivals allow nativos passage through their property in order to fish and harvest fruits such as coconuts and mangoes, but others do not. For example, one of the largest new landowners has an expansive estate, stretching from one of the banks of the Tijuípe river to where it empties into the sea. Within the property, there is a sizeable area of mangroves where many nativo residents grew up and learned to fish. The area is particularly important for women, given that they fish from land and in the mangroves, using rods to catch aratus and collecting crabs. Given their long standing connection to the place, they currently have authorization from the owner to pass through his land to carry out traditional fishing activities. However, in order to do so they must pass through a security checkpoint staffed with private security guards and they are generally not allowed to use cars to move through the property. On the other side of the Tijuípe River, a farm that caters to tourists does not allow access to the mangrove at all. This prohibition has led to numerous conflicts between fisherman and landowners.

"Pegamos uma garrafa cortamos em 2 banda aproveitando as bandas e o pescoço e a tampa da garrafa,  depois pegamos  essas banda de garrafa furamos, enfiamos no cordão colocando o pescoço ou a tampa para separar as garrafas  para as ostras se desenvolverem, depois amarramos em uma vara e levamos para o mar e deixamos lá para pegar sementes de  3 a 4 meses. Quando essa semente está boa de tirar, vamos até as bancadas no mar com a canoa, pegamos esses coletores e colocamos dentro da canoa. Pegamos as bandas das garrafas e torcemos e todas as ostras  se soltam das garrafas. Aí pegamos essas sementes, colocamos em um travesseiro de malha menor e levamos pra bancada pra ela se desenvolver e crescer. Depois voltamos até as bancadas no mar, onde ficam todos os criatórios de ostra, pegamos os travesseiros e vamos fazer a limpeza da  ostra. Colocamos os óculos para proteger os  olhos  das cracas ou das cascas das mesmas, que quando batemos o facão na casca dela, às vezes, voa pra todo lado. Por isso é importante o uso do óculos  na  limpeza das ostras. Após ela limpa, contamos as grandes, que são  de 7 cm, que  já estão em ponto de venda e são separadas das  miúdas de 3 a 5 centímetros que colocamos no travesseiro de malha maior, e levamos de volta para o mar."

As ostras de dúzias podem ser consumidas cruas, ou assadas e são vendidas em dúzia, cruas, dentro de suas cascas, por isso exigem uma comercialização mais eficiente.

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Demonstração das Ostras em travesseiros nas bancadas 

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Ostras escaldadas para serem catadas

Catagem coletiva da Ostra - Comunidade Kalembá

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Luciane e seu sobrinho Alexandre

Ferramentas

As ferramentas utilizadas para  a mariscagem na região variam conforme as espécies que desejam pegar,  e as condições sociais de cada marisqueria, mas em geral, com poucas ferramentas é possível retirar grande diversidade e quantidade de espécies dos mangues. Idealmente para ir ao mangue é necessário um sapato apropriado para proteger os pés e auxiliar na movimentação na lama, além disso, calças compridas, blusas de manga com proteção UV e luvas de proteção. Porém, essa estrutura é custosa e então, as marisqueiras se adaptam como podem, utilizando roupas velhas, sem as proteções devidas e sapatos feitos de calças velhas. Além disso, como repelente utilizam óleo diesel ou kerosene para afastar os mosquitos.

Sapato de ir pro mangue

O facão é muito utilizado na retirada das Ostras, sendo que algumas pessoas também o utilizam para retirar o sururu e outros mariscos. O facão frequentemente é um facão de agricultura já gasto,  que depois de muito usado e amolado, reduz em tamanho e muda sua utilidade para a retirada de mariscos no mangue.

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O Jereré é utilizado para pegar peixe, siri, e camarão nas camboas. 

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O coifo é utilizado para transportar os pescados, assim como o balde e o balaio que é deixado na canoa em que serão jogados os pescados que foram acumulados no coifo. Lá são lavados na água da maré, retirando parte da lama e reduzindo seu peso para o transporte.

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O transporte acontece na Cangaia, que são especies de bolsões pendurados no animal de transporte (em geral mula ou burro) e nele serão levados até as casas. ​

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Panelas e caldeirões servem para cozinhar os mariscos, em geral as Ostras como são volumosas são cozidas nos caldeirões grandes, de onde serão catadas. As panelas menores servem para a feitura de escaldados de mariscos já catados. Os travesseiros são sacolas ou chamados “gaiolas”,  feitas de malha para o cultivo das Ostras de dúzias. 

Dona Edith - Comunidade Kalembá

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Ferramentas de mariscagem e espécies.
Ferramentas: Travesseiro, balde, jereré coifo, balaio, facão, luvas e sapatos feitos de calça jeans.
Espécies: Sururu, camarão, caranguejo.

São muitos instrumentos, que variam devido às condições sociais das marisqueiras, porém, pode-se dizer, que no mangue é possível mariscar qualquer um, tenha bons instrumentos, ruins, ou nenhum, já que até mesmo com as mãos e quaisquer itens já se pode pescar alguns mariscos. Assim o mangue oferece garantia alimentar para qualquer um, e mantém a sobrevivência dessas comunidades.

Secando Camarão

Cavando Mirim

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